Resenha de Kindred: Laços de Sangue, de Octavia E. Butler

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Voltemos no tempo para explorar diversos temas difíceis e complexos, com uma ficção científica que tem estrutura diferente e que, com certeza, irá te destruir e não ser mais o mesmo…


Editora: Morro Branco Kindred: Laços de Sangue, de Octavia E. Butler
Páginas: 432
Ano de publicação original:

Sinopse:

Em seu vigésimo sexto aniversário, Dana e seu marido estão de mudança para um novo apartamento. Em meio a pilhas de livros e caixas abertas, ela começa a se sentir tonta e cai de joelhos, nauseada. Então, o mundo se despedaça.Dana repentinamente se encontra à beira de uma floresta, próxima a um rio. Uma criança está se afogando e ela corre para salvá-la. Mas, assim que arrasta o menino para fora da água, vê-se diante do cano de uma antiga espingarda. Em um piscar de olhos, ela está de volta a seu novo apartamento, completamente encharcada. É a experiência mais aterrorizante de sua vida… até acontecer de novo. E de novo.Quanto mais tempo passa no século XIX, numa Maryland pré-Guerra Civil – um lugar perigoso para uma mulher negra –, mais consciente Dana fica de que sua vida pode acabar antes mesmo de ter começado.


Dana é uma mulher negra, escritora, que acabou de se casar com o também escritor Kevin, homem branco e, juntos, tentam começar uma nova vida a dois. Organizando a nova casa pensando como podem viver em um novo lugar, até que de repente, Dana é transportada de 1976 para aproximadamente 1810, em Maryland em pleno período escravocrata e, por impulso, salva um menino ruivo da morte. Em seguida, molhada, suja de lama e com uma arma apontada para sua cabeça, Dana é mandada de volta para o seu tempo. E aquilo foi só o começo.

O tempo é totalmente relativo para ela e para Rufus, o menino ruivo do passado. Enquanto que no passado passa-se um período mais longo, no presente, é um período bem mais curto. Além disso, Dana descobre fatos sobre seus antepassados que não tinham sido revelados antes e, claro, tem que sofrer como os negros da época da escravidão, caso queira sobreviver.

A história tem claramente elementos clássicos de ficção científica, como a viagem no tempo. Porém, a autora trabalha com isso de maneira diferenciada. Ela dá como mecanismo de viagem as emoções (principalmente o medo) dando ao conceito uma nova roupagem, algo mais pessoal e humano em vez do esforço humano na ciência fantasiosa. A escrita é tão bem elaborada, que mais de 400 páginas passam voando por seus olhos e, magistralmente, consegue nos fazer ter apego pelos personagens envolvidos, seja no presente ou no passado.

E como uma ficção cientifica que se preze, ela é banhada de sangue e críticas sociais por todos os lados em sua estrutura. Sendo as mais fortes sobre racismo e machismo. Tendo foco maior no primeiro tópico, pois, em período de escravidão, as atrocidades eram bárbaras e, o tratamento aos negros, por todos os brancos na sociedade era desumano. A brilhante dama da ficção cientifica nos questiona, cutucando-nos, mostrando que temos a pré-disposição a aceitar a escravidão sem lutar da devida forma, principalmente em nossas mentes.

A história tem muito mais a dizer: estrutura política, relação entre escravos, o trabalho forçado, os primeiros radicais que depois virariam o KKK, relação afetiva inter-etnica e etc, sendo tratados com todos os detalhes cruéis e sórdidos, fazendo desta ficção algo muito crível, tratando psicologicamente dos efeitos dos acontecimentos nos personagens, em cada tempo com sua dor pertencente. Este livro te destruirá. Irá desmontá-lo e remontá-lo sem dó ou piedade. E digo mais, é preciso que seja assim.

Caíque Apolináriohttp://bookstimebrasil.com.br
Escritor de três livros de ficção em conjunto com a Raquel Cortez Machado e host com a voz mais sedosa da podosfera. Viciado em café, multi tarefas e o suporte de toda a equipe.

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