Escrevi este artigo buscando, através de meios semióticos, fazer uma relação entre filme e livro. Analisando técnicas literárias e cinematográficas para passar a mensagem necessária, é investigada a relação de expressão do ambiente, drama e de natureza interpretativa da protagonista Virginia Woolf, relacionados à sua intenção de cometer suicídio – presente nas obras de Michael Cunningham e Stephen Delbry, onde a narrativa, através da percepção de seu suicídio, guia uma estrutura comumente pessoal com o espectador/leitor.
 
Antes de prosseguir com esta análise, precisamos conhecer dois conceitos semióticos: o plano da expressão e o plano do conteúdo. O plano da expressão nos diz respeito a um código expresso no conteúdo do texto – seja ele verbal, icônico ou gestual. Já o plano do conteúdo, por sua vez, trata de tudo aquilo que o texto diz. Sendo assim, a grosso modo, ele é o significado do texto e o plano da expressão à manifestação do conteúdo. 
guia narrativo em "As Horas" - Livro e Filme


Utilizado como base, o Manual da Semiótica de Ugo Volli traz o contexto exato a ser usado para a elaboração de uma discussão acerca da narrativa semiótica. O estudo requerido e a aproximação metodológica em relação às mídias em questão (Literatura e Cinema). Logo, é trabalhado uma relação comparativa entre momentos, utilizando-se uma decupagem a respeito de ambos os produtos para facilitar esta relação.  Para concretizar  o plano da expressão em relação ao plano do conteúdo é utilizada a ideologia de morte por suicídio, como modo antropológico (neste caso, sempre empático) em relação ao espectador – a forma como é tratado o suicídio na sociedade e como ela percebe a situação com base em seu conhecimento e crendices sobre


A perspectiva do suicídio é pessoal para o espectador, pois isso influenciará na maneira como o mesmo lida com a percepção de Virginia Woolf, julgando-a, de forma moral no âmbito audiovisual e literário, podendo ou não, a partir do plano do conteúdo, influenciar a perspectiva gerada através do plano da expressão. Sendo o plano do conteúdo (suicídio da mesma personagem) o mesmo para os dois.

Através de uma narrativa guiada pelo suicídio de Virginia Woolf, Cunningham parte de uma narrativa que explora os sentidos e nos guia através do mesmo: uma carta escrita, uma pedra, um rio que corre em uma manhã fria… tudo isso tem um significado próprio para o suicida – assim como para o leitor, que entende essa relação com seu semelhante. Esse identificar com outrem, vulgo empatia. Sendo estes objetos criados pelo autor – não para produzir um sentido e sim para compreender. Explorando essa relação com um intimismo entre o leitor e o apelo visual, como trabalhado por Stephen Delbry, mais diretamente, talvez mais claro, e cru, proporcionado pela narrativa audiovisual. Através desse diferencial, como dito por Ugo Volli “podemos produzir comunicação modificando a significação de um objeto”. Sendo assim, a necessidade de suicídio de Virginia Woolf altera os sentidos já providos e naturalizados pelo senso comum que trazemos: seja a significância da carta, da pedra ou do rio correndo.

A obra de Michael Cunningham faz com que o leitor tenha uma experiência muito mais intimista, buscando através dos meios compartilhados pela sociedade sua identificação e desenvolvimento crítico sobre a obra.

No filme de Stephen Delbry, tudo é exposto com uma forma e um conceito em determinado local. A profundidade da cena permite o espectador olhar além do que é mostrado. O diretor explora recursos que complementam a narrativa já centralizada no tema, dando mais complexidade ao assunto, porém, deixando-o menos pessoal quanto a análise.

A diferença que podemos perceber, comparando as duas obras, é que a leitura da carta surge de forma mais avançada no livro (apenas nos é dito que foram deixadas duas cartas, a leitura é feita mais tarde) do que no filme que compartilha de técnicas cinematográficas, principalmente sobrepondo a narradora da carta – a própria Virginia – com cortes de cenas para enfatizar algo. Já Michael Cunningham utiliza-se de uma linguagem mais detalhista e precisa sobre o percurso de Virginia até o rio. O texto não necessariamente é em primeira pessoa, mas faz-se parecer quando nos entregamos a sua percepção de suicídio que fica clara logo no começo com: “Deixou um bilhete para Leonard e outro para Vanessa. Caminha decididamente em direção ao rio, segura do que vai fazer[…]”. Neste momento a perspectiva do leitor, em relação as coisas que se seguem, são guiadas pela segurança do que ela vai fazer. A noção que temos – de tempo, objetos, ambiente, no contexto que nos é comunicado, através daquilo que conhecemos – faz com que haja uma mudança de significado em relação ao que está em volta. É possível perceber mais adiante a angústia que é narrada por sua falha, quase como se o autor fosse sua consciência narrando seu trajeto até o fim.

guia narrativo em "As Horas" - Livro e FilmeNa obra de Michael Cunningham, o suicídio parece sondar as coisas que cercam a personagem e o período (tempo e espaço) que a vida dela se encontra. Coisas fúteis e vazias se tornam objetos aliados na culpa de Virginia que a guiam para seu suicídio. Da saída de casa até o rio, a água comprimindo-a e molestando-a, tudo parte de seu momento como suicida.

No filme dirigido por Stephen Delbry, percebemos uma graduação à percepção de seu suicídio, fortalecendo o ambiente à sua volta aos poucos que vamos descobrindo sua verdadeira intenção. As cores intensas e opacas demonstram uma atmosfera sutil que relativiza a situação que a personagem se encontra. Sendo sua intenção, o suicídio evidente na leitura da carta que acontece no decorrer das cenas.

bio MIKE Dilelio

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