O Homem que mudou o mundo
 
Chovia torrencialmente aquela noite.
 
        Não que a chuva fosse algo novo, principalmente naqueles dias. A chuva caía quase que ininterruptamente, como uma vã tentativa da natureza de lavar os pedaços dos homens e suas construções, essas terríveis cicatrizes artificiais de pedra e aço que parecem tentar machucar o próprio céu. Cada vez mais altos, cada vez mais caros, cada vez mais custosos para o próprio planeta… Mas o ser humano sempre foi conhecido por sua mania de grandeza, seu desejo de não só parecer maior do que realmente é, mas também de fazer todos ao seu redor parecerem menores.
 
        Prédios grandes são sinônimos de poder.
 
        Ninguém tem mais poder do que Leonid Cooper.
 
        Do alto do seu arranha-céu, o segundo maior da cidade de São Paulo, Leonid olhava para baixo através da janela de seu escritório particular. Toda aquela chuva, toda aquela fúria de água recém condensada que caía e tentava lhe atingir em nada o alcançava. Ele era inatingível. Ele era o poder. Um trovão pode ser visto no horizonte. Seu prédio localizado próximo a antiga estação de metrô de Pinheiros lhe dava uma visão ímpar da cidade. Muito tempo havia se passado desde que o famoso rio que deu o nome ao bairro foi finalmente limpo, e todos os prédios ao redor acabaram ficando caríssimos. De fato, a Avenida Paulista, que já fora a região mais rica do país, hoje sobrevivia graças a uma ou outra sede que permanecia no local. Não. Pinheiros era o que há de melhor no país.
        Lembrou-se de quando resolveu gastar grande parte do dinheiro da companhia em um acordo com o governo brasileiro… leis mais brandas, menos impostos, uma população ansiosa por trabalhar e receber bem menos do que ele pagava nos Estados Unidos… a mudança de sede fora apontada por muitos como um movimento arriscado, mas ele sabia o que estava fazendo. Sempre sabia.
 
        Um novo trovão bradou, a luz de outro relâmpago insistiu em invadir seu território. Que audácia!
 
        De repente, na parte superior direita do seu olho, apareceu a imagem de sua bela assistente. Óbvio que ele escolheu a dedo quem seria a sua secretária… não queria ter que ver a foto de uma mulher feia ou de um homem toda vez que precisassem falar com ele, e Deus… como precisavam falar com ele…
 
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        Ao focar seu olhar na imagem, uma voz de uma mulher com cerca de 27 anos começou a falar diretamente no seu ouvido:
 
        — Senhor Cooper, a detetive Ribeiro do 14° D.P. quer falar com o senhor.
        — Uma detetive? O que diabos uma detetive quer comigo? Você sabe que dia é hoje não sabe?
        — Senhor… ela não quis dar detalhes… aparentemente tem algo a ver com o lançamento dos teus aparelhos…
        — Ela é bonita?
        — Perdão?
        — Ela é bonita?
        — Senhor, acho isso irrelevante, não?
 
        O olho de Cooper tremeu devido ao ódio.
 
        — Escuta aqui! Quem é você para me dizer o que fazer?? – Gritou o homem. – Só me diga se essa detetive é bonita!
        — Sim… eu a acho bonita…
        — Permita que ela entre então.
 
        Um som de trancas eletrônicas sendo destravadas ecoou em todo o escritório. Era uma sala enorme, muito maior do que precisava para ser simplesmente a sala onde o dono da maior corporação de telecomunicações do Mundo deveria receber seus relatórios e seus subordinados. O local era decorado com vários quadros, mas todos eles desconexos entre si. Havia Picasso ao lado de Dali, havia Romero Britto ao lado de Da Vinci. Cooper não entendia muito de arte, mas entendia de status.
 
        A detetive Elizabeth Ribeiro adentrou aquele palacete egocêntrico sem se incomodar. Havia muito tempo que estar trabalhando como detetive naquele departamento de polícia em específico a fez se acostumar com o temperamento, a moral e as ações dos poderosos. Sabia que aqueles homens que ela tinha que tratar eram justamente as pessoas que comandavam o país, e que por essa razão se sentiam poderosos e inalcançáveis para a justiça…
 
        Vestia-se com simplicidade. Seu sobretudo bege protegia seu pequeno corpo tanto da chuva quanto dos olhares curiosos das pessoas por quem ela passava. Tanto seu distintivo quanto armas ficavam escondidas atrás daquele volume impermeável de pano. Era uma mulher de estatura média, seus olhos castanhos pareciam estar sempre analisando tudo à sua volta, o que fazia muitos se perguntarem se ela fazia parte do grupo de pessoas que receberam implantes cibernéticos para teste. Seu cabelo era escuro como a noite, amarrado com um cabo de cavalo e deixando livre apenas uma franja que caía sobre seu olho direito.
        Ainda assim, todas as pessoas que ela investigava a tratavam com extremo desprezo. Ela era uma policial, afinal, e nada podia fazer para tirá-los o poder, apenas encher a paciência. Talvez isso explique o porquê de ela ser tão fechada. Mas ela tinha um trabalho a fazer e não iria permitir que aquele gordo asqueroso a importunasse. Sabia o que tinha que fazer.
 
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        — Detetive… — Começou o empresário — que prazer receber uma senhorita tão bela em meus humildes aposentos…
 
                Ele fez menção a cumprimenta-la, mas ela não ergueu a mão. Com um sorriso no rosto, observou o semblante da jovem a sua frente. Rosto fechado como sempre, querendo parecer forte e auspiciosa, era esse o tipo de mulher que mais agradava ao perverso.
 
        — Senhor Cooper, estou aqui para avisá-lo que o senhor e a sua companhia estão sendo investigados…
        — Mas o que? O que quer dizer? Sabe que dia é hoje? O que ele representa para minha empresa? – Respondeu com sarcasmo. Tentava emular uma cara de surpresa, enquanto escondia um sorriso pérfido.
        — Sei, sei… — ela disse com um ar exausto — É exatamente por isso que estou aqui. Seu novo celular está no mercado a apenas 13 horas e 17 pessoas já morreram por causa dele.
        O sorriso sumiu. A soberba desapareceu. Em seu lugar uma fúria crescente começou a inflamar o já redondo rosto do empresário.
        — Como ousa… como ousa chamar meu conector neuro-visual de… celular? Que tipinho de pessoa é você?
        — Do tipo cansado. Olha só, eu só vim aqui porque preciso avisá-lo, segundo as leis deste país de meu Deus, de que na tarde de hoje um motorista de aerotransporte acabou batendo em um elevador público após receber uma imagem pelo seu celular neuro-visual, é esse o nome? Enfim…
        — E o que eu e minha empresa tem a ver com isso? Se ele se distraiu com uma imagem em pleno 2073 quer dizer que ele não está preparado para viver na era da informação.
        — Meu pai diz que o mundo está na era da informação desde que inventaram a internet… enfim. Pessoas morreram, aparentemente o seu aparelho transmitiu informações sem consentimento de uma jovem… o senhor está sendo investigado por suspeita de quebra de contrato no que diz respeito à privacidade.
        — Meu aparelho não envia nada sem o consentimento de quem envia. O que vai para a rede é culpa de quem envia.
        — Ai que está, Cooper. Ninguém enviou nada. Ninguém tinha seu aparelho no local do crime e, mesmo assim, uma informação sigilosa acabou sendo enviada, o que causou várias mortes.
 
        O resto de serenidade no rosto do homem desapareceu por completo. Pousou suas duas pesadas mãos sobre a mesa em um forte golpe. O barulho da madeira retumbou pelo grande ambiente, que devolveu em um medonho eco àquela vibração sonora. Qualquer um ficaria acuado nessa situação. Qualquer um menos Elizabeth. Ela apenas acendeu seu cigarro eletrônico.
 
        — Que informação é essa? O que teria distraído tanto o motorista? Uma foto tua peladona? — E o empresário riu alto olhando para a cansada detetive.
        — Não. Da moça. Ela não tinha o seu celular, nem o cara que estava com ela naquela tarde. Não sei como ainda, mas alguém que não estava no local com eles conseguiu não só vê-los em um momento íntimo, como o enviou para a internet. 
 
        Cooper engoliu em seco. Ele conhecia a tecnologia, sabia como funcionava e todos os potenciais dela, sabia como aquilo teria acontecido. Mas não iria contar para aquela detetivezinha… ela que se esforçasse e tentasse descobrir algo. E se descobrisse o queria fazer? Prendê-lo? O Governo jamais permitiria tal coisa…
 
        — Sei que está pensando que eu não posso prendê-lo — começou a detetive — Isso é verdade, mas entenda que é meu serviço tentar descobrir o que está acontecendo e depois disso, dizer a verdade para população.
 
        Cooper respirou fundo, tentando recompor a compostura e o controle da situação. Aos poucos, seu maléfico sorriso foi voltando ao semblante. Começou a caminhar dando a volta na mesa para se aproximar da detetive.
 
        — Você é inteligente, detetive. Sabe que quem controla o que sai ou não na mídia é amigo meu… faça o que quiser. Jamais provará nada.
       — Provarei. Não preciso dizer para a mídia comum o que aconteceu. Existem sites ainda, sabia? Imagine só o pânico, as devoluções e queda das vendas do teu celular quando a galera de baixo descobrir o que aconteceu com essa garota. Aliás, essa sua resposta reforça sua culpa… não quer dizer logo sua confissão e terminar com isso?
 
        Mais uma vez Cooper perdeu a paciência, explodindo em cólera, apontando seu gordo dedo na direção da mulher que o ameaçava em seu próprio santuário.
 
        — Quero dizer algo sim. Quero que você vá para o inferno, sua vaca!
        — Que gentil, eu moro lá. Quem sabe quando isso acabar possamos ser vizinhos, não é mesmo?
 
        Elizabeth deu meia volta e caminhou em direção à porta. Muitas e muitas vezes tivera que ser dura e fingir que estava no controle da situação, mesmo sabendo que não estava. Sabia que Cooper tinha o poder de abafar o caso e sair ileso de seja o que for que ele esteja tramando, e que seu aviso iria dar a ele o alerta de que algo de errado aconteceu, e assim concertá-lo, ou mascará-lo, em uma atualização. De tudo isso ela sabia, e mesmo assim tentava fazer o que fosse possível para descobrir a verdade. Seria mais um escândalo para ficar guardado em seus arquivos pessoais enquanto lá fora eles se desfaziam em poeira e esquecimento.
 
        Mas daquela vez era diferente. Ela sentia que, de uma forma ou de outra, aquela situação tinha ido longe demais, e que finalmente seus serviços serviriam para algo. Não sabia como e nem porque, mas sentia isso no vento que soprava pelas frestas de janelas abertas no corredor.
 
        Naquela noite chovia.
 
        Caía a chuva que iniciaria a limpar uma das muitas sujeiras de nosso planeta.
Fim do capitulo 1.
 
 

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