Aquele que ligava as coisas

A cada segundo que passava, a chuva caía mais pesada na cidade de São Paulo.

O superintendente de crimes tecnológicos Wagner Bronsly estava sentado em sua mesa. Pastas e mais pastas se aglomeravam na tela de trabalho em seu notebook à sua frente. Um modelo antigo, que ainda possuía teclas digitais para digitar. Ele se achava o máximo por ser vintage em uma era tão tecnológica.
 
 
 
Sua sala em si era Vintage. Ainda que tivesse um potente trocador de calor, mantinha um ventilador de teto girando sempre. Um tapete com linhas vermelhas e azuis decoravam o centro da sala. Sua mesa era de madeira orgânica, com seu notebook e o cinzeiro. Ele não fumava. A porta mostrava seu nome e embaixo seu cargo.
 
Ele sabia que todas aquelas pastas eram os mais diferentes pedidos de permissão de uso ou remissão das lojas dos mais diversos aparelhos que as grandes corporações enviavam para que ele desse seu aval de conformidade com a lei. Mas como sempre, “rolava um por fora”…
 
Um desses “por fora” havia acabado de matar 17 pessoas.
“Que merda”- ele pensou.
 
A verdade é que desde de quando os Estados Unidos se meterem em algumas de suas guerras, algumas gigantes resolveram migrar suas sedes para o Brasil. Como parte dos acordos entre o governo e elas, muitas concessões e facilidades foram garantidas. Ele tinha por obrigação com o país e com seu emprego autorizar que o novo conector neuro-visual inventado por Leonid Cooper chegasse às lojas mesmo infringindo milhões de acordo de privacidade.
 
Era mesmo obrigação dele? Ele não tinha realmente o poder de fazer algo?
Afinal de contas, existe privacidade?
 
Queria estar sozinho. Queria pensar em uma forma de escapar daquela enrascada e redimir seu pecado. Sim, o sangue daquelas pessoas estava em suas mãos… ele autorizou.
 
Fim da privacidade… governo na mão de empresas…
 
De sua janela conseguia ver a pequena multidão que vinha se aglomerando. Palavras de ordem, gritos patrióticos, berros pelo desejo de não serem monitoradas 24 horas por dia.
 
 
 
Desejo do fim da corrupção… Desejo de privacidade…
Cada uma destas questões o afligiam, cada uma um lado do rosto esbofeteando-se. Levantou-se da cadeira e foi até a janela. Lá viu um homem muito semelhante com ele mesmo flutuando por entre os prédios.

— A culpa é tua, você sabe, não? — Disse o homem nas alturas.
— Você, veio me zombar então? É bem a sua cara fazer isso… — respondeu.
— Faz tempo que eu espero esse dia. Poder vir e rir de você afundando nas merdas que você mesmo fez na vida.
— Do que está falando? Não me sentirei culpado pelas palavras que você diz.     — Olhou com total desprezo para aquele que voava entre os prédios, que retribuiu o olhar de volta.
— Tudo bem, mas você sabe que todos estão vendo lá embaixo nossa conversa né? Um ou dois recrutas compraram esse aparelho que você deixou ir para as lojas… O que será que estão pensando de nós?

O que acham? — gargalhou — Estou me lixando para o que eu acho… Esses malucos ai fora e os caras da Janela de Aço se preocupam tanto com privacidade… devem estar escondendo algo. Este aparelho pode muito bem ser o futuro! — Deu um sorriso maquiavélico para a janela. O homem que flutuava lhe retribuiu o sorriso.
— Wagner, sei que não acredita, mas pelo amor de Deus, que merda você está falando? Privacidade é aquilo que nos separa de virarmos de vez uma ditadura e uma massa de manobra gigante, é por causa dela que as pessoas têm suas individualidades e intimidades.
— Isso, a privacidade, está morta desde quando nasceu a internet wi-fi. Não existe mais isso. Me deixe trabalhar agora, saco!
— O que tem nestas pastas? Um novo armamento para o exército particular poder matar sem deixar rastros? A possibilidade de colocar localizadores GPS para qualquer que entrar no país? Aqueles novos implantes cibernéticos? Quantos inocentes mais morrerão por causa da tua canetada?

— Para. — Fechou o punho com ódio.
— Você acha que é inocente porque os manda chuvas te obrigam a assinar? Está errado. Você tem culpa sim!
— Para, por favor! — lágrimas começaram a sair de seus olhos.
— Não é só questão de o que é certo ou o que é errado. É questão de você não agir como realmente acredita. Como eu acredito.
— Eu mandei você parar!
 
Wagner deu um soco na janela. Foi o suficiente para fazer uma rachadura no vidro, cortando sua mão. Um clarão iluminou sua sala e um trovão retumbou. O rachão dividia seu reflexo em dois. Por um momento, surdo pelo trovão, pensou em tudo que havia conversado. Pensou que devia ter feito algo, pensou que devia ter avisado alguém.

Avisar.
Mais um clarão iluminou sua sala. Pensou no acidente. Uma menina fazia sexo com o namorado, uma foto dos dois foi enviada para um caminhão que bateu em um elevador, matando 17 pessoas. Nem o namorado nem a menina tinha o aparelho neuro-comunicador.
 
Parecia tão ridículo esta combinação de fatos. Tão improvável. Algo não se encaixava.
 
Sabia que a empresa facilmente iria se safar de qualquer culpa. Sabia que esse crime seria facilmente desvendado e o culpado queimado em praça pública. Quantas vezes isso teria acontecido?
 
Mas seja quem for quem enviou a foto, sabia disso. Sabia que ele pagaria o preço, e que sua atitude em nada mudaria nada, se é que o culpado teria organizado tudo isso, e não fosse apenas um hacker pervertido a fim de destruir a vida de uma moça.
 
Não. Ele não teria enviado para o motorista diretamente sem um plano. E se houve realmente ele só podia ter uma finalidade.
Um aviso.
 
Sentou-se em sua mesa. Olhou para a tela do computador, que estava em modo de descanso, e conseguiu ver o homem que flutuava sentado em uma mesa muito parecida com a dele mesmo. Levantou o rosto e disse:
— A quem avisaremos?
— Só há uma pessoa em toda a corporação que está tão depreendida da vida que iria se permitir levar a sério uma causa perdida destas…
— Elizabeth Ribeiro… ela veio falar comigo mais cedo, está indo falar com Cooper.
— É a nossa mulher. Mas só há uma maneira de chamar a atenção dela para a nossa descoberta, e forçar que ninguém mais se intrometa.
— De acordo. Façamos isso então.

Wagner pegou um caderninho que guardava consigo e uma caneta. As pessoas sempre ficavam horrorizadas quando viam que esses objetos ainda existiam. Escreveu um pequeno texto:
Eliz.
Deixo aqui um pequeno aviso. Compreenda que tudo é um aviso. Permita-se ouvir a mensagem, aprender a moral da história e levar a mensagem adiante. Cooper foi só o começo

Um novo barulho agudo preencheu a sala. Vários policiais, que estavam há minutos tentando desesperadamente abrir a porta para conversar com seu superior reconheceram rapidamente o som.
Um tiro.
Em menos de 24 horas um novo tipo de telecomunicação já havia matado 18 pessoas.




E só havia uma mulher que poderia entender a sombria trama que espreitava a noite como uma mortalha de inverno.

Esta mulher estava cansada. O mundo estava cansado.
O mundo precisava de uma luz.

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