A moça que ouvia o vento

 

A região de Capão Redondo foi conhecida, durante décadas, por ser um local à margem da sociedade. Pessoas pobres viviam por ali desde os primórdios de sua existência. E as coisas continuavam assim, mesmo com o crescimento da cidade.

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Apesar do avanço tecnológico das linhas de metrô e da inclusão dos aero-ônibus, ainda era um tanto quanto complicado alcançar aquela região. A violência ainda imperava por lá e o governo não via motivos para tentar uma pacificação. Era necessária uma população assustada para que ela comprasse os itens de segurança privada de empresas que patrocinaram a eleição do prefeito da cidade, afinal.

 

Diferentemente das grandes vias da cidade, como as marginais Pinheiros e Tietê ou a Dutra, o caminho para lá não era equipado com os eletro-imãs que possibilitariam a ida de carro no modo econômico: era necessário, de fato, usar o modo manual, com aquelas coisas arcaicas que já foram consideradas a maior invenção da raça humana: o pneu.

 

Por ser um local muito pobre, Capão Redondo acabou sendo alvo de uma parte da população paulista que pregava a separação dela do resto da cidade. Uma área tão atrasada atrapalhava a nova imagem da cidade, de um novo centro financeiro do mundo. O novo centro cultural da humanidade. Entretanto, este argumento era rebatido pelo fato de que os moradores de lá tinham muito amor pela sua cidade, e tal medida poderia ser extremamente impopular.

 

Muitos movimentos populares começaram ali.

 

As recentes discussões sobre privacidade haviam eclodido a partir de um evento ocorrido lá.

 

Vanessa tinha 20 anos e um sonho: ser pilota de espaçonaves.

 

Embora sempre tenha mostrado um talento nato para pilotagem, ela sempre foi desmerecida. Só homens pilotavam, diziam a ela.

 

Era necessário também muito mais do que talento. Era necessário ter muito dinheiro para poder estudar no Cazaquistão para alcançar este posto. Ainda que dia após dia, esses tipos de naves fossem mais e mais usadas pela humanidade, ainda assim não era tão simples como pegar um elevador urbano e mudar de plataforma na cidade.

 

Ter dinheiro ou ser muito inteligente e conseguir uma bolsa. Vanessa virou uma CDF.

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Durante 12 anos, ela viveu em função deste sonho. Estudava, lia, assistia e conversava sobre coisas que seriam úteis na prova para entrar como piloto. Mas antes, ela precisava entrar numa faculdade de engenharia. Conseguiu entrar na USP facilmente.

 

 

Para fazer a prova, ela precisava estar pelo menos no terceiro ano de curso. Ano após ano, ela ia alcançando este objetivo. Em quatro meses estaria no terceiro ano. Em sete, faria a prova.

 

Finalmente, faria todos engolirem suas palavras. Seria pilota.

 

A melhor de todas.

 

Foi aí que ela conheceu um cara.

 

Paul era bonito. Sotaque inglês, um cavalheiro praticamente. Seus olhos eram tão incisivos que pareciam olhar para a alma dela. Se encontraram a primeira vez na casa de um amigo em comum que fazia aniversário. Ela não queria estar ali. Mas depois não quis mais sair.

 

Redes sociais trocadas, Vanessa só pensava em Paul. Sonhava que ele a aceitasse e a fizesse feliz.

 

Que a fizesse feliz como nenhum outro homem jamais havia feito.

 

Um dia, eles foram ao cinema. Tímida, ela tremia e suava por estar ao lado daquele cara que parecia alheio e superior a tudo aquilo. Ele citava clássicos como Casablanca, O Mágico de Oz e La La Land. Explicava a ela sobre uso de luz e sombra, o nascimento da holografia, os princípios da imersão dirigida. Pôs a mão na perna dela. Logo, não havia mais filme.

 

Minutos depois, lembrava-se apenas de estar em seu quarto, beijando-o. De repente, ele tirou a roupa dela, olhou, sorriu e foi embora.

 

Uns 15 minutos depois, ligaram para ela. Seu pai havia sofrido um acidente de caminhão e matado várias pessoas que estavam em um elevador urbano.

 

Passados 20 minutos, suas redes sociais estavam cheias de xingamentos por sua vulgaridade – deixar-se fotografar nua e ter esta foto espalhada por toda a internet.

 

Com 30 minutos, os primeiros policiais estavam ali para entender como diabos ela deixou que aquilo acontecesse, mesmo com todos os avisos que o aparelho dava para que as pessoas tomassem cuidado com o que publicavam.

 

Em 1 hora, a DeadTech provou que não existia nenhuma trava para o que era ou não publicado. Pior. Tudo que as câmeras e microfones captavam, iam para a central da empresa.

 

Em 2 horas, ela era uma espécie de heroína da humanidade. Uma mártir que teve sua intimidade violada.

 

No dia seguinte, uma senhorita chamada Elizabeth Ribeiro foi a ela e se apresentou como a detetive do caso. Ela explicou que o que parecia ser simplesmente um ciber crime, tomou repercussões grandiosas. Primeiro: porque ela averigou que a informação da DeadTech estava correta. O aparelho que causou tudo aquilo feria a terceira emenda do acordo mundial de crimes cibernéticos – que dizia ser dever das empresas detentoras de novas tecnologias, seja hardware ou software – de assegurar a privacidade de seus clientes.

 

Todo mundo sabia que esta diretriz não era seguida. Mas agora era diferente.

 

O policial da divisão de tecnologia da polícia, que deu o aval para este aparelho ser comercializado, cometeu suicídio. Em seus arquivos, haviam diversas provas da irregularidade do caso e que o governo fora conivente com tudo isso. Mais uma vez, a DeadTech espalhou a notícia. O país virou palco de uma grande discussão tecno-filosófica.

 

E a pessoa que cometeu este crime, Paul, estava morto há sete anos.

 

Então, quem era o homem que fez isso? E por que enviou a foto para o pai de Vanessa?

 

Era isso que Elizabeth estava focada em descobrir.

 

Após um dia de chuva ininterrupta, um tornado surgiu em São Paulo. Vanessa só queria que aquele vento lavasse essa sujeira.

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No dia posterior, ela recebeu um e-mail informando-a que a escola de pilotos do Cazaquistão havia deferido sua inscrição à prova, tendo em vista que ela era parte de uma investigação e que, até que se provasse o contrário, havia cometido atos imorais.

 

O sonho de Vanessa morreu. Morto pelo flash de uma câmera ocular.

 

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