O senhor que previu o Apocalypse

“Aconteceu quando as primeiras empresas vieram para o Brasil.

No mesmo dia em que o governo brasileiro fechava acordos para que Leonid Cooper trouxesse sua empresa para cá, um homem teve uma visão.

Uma premonição.

Ele viu uma sociedade falida. Uma sociedade em que a tecnologia ditava quem era quem. Uma sociedade onde a individualidade humana era desprezada em prol das facilidades de apertar um ou dois botões e ter todos os seus desejos alcançados.

Isso o deixou enojado.

abelhas

O homem – que na época já tinha seus 60 anos – lembrou de quando era uma criança. O Brasil ainda era um país que tropeçava em suas próprias pernas na busca pelo desenvolvimento. Os Estados Unidos ainda mandavam e desmandavam nos rumos do planeta e tudo que eles consumiam era proveniente da China. Ainda assim, ele gostava daquela vida.

No meu tempo era melhor, pensava ele.

Os bons tempos estavam acabados.

Agora o Brasil havia importado todas as mentes geniais e era o epicentro do mundo. De repente, tudo que estava ligado à tecnologia de ponta saía daqui.

Porém, não eram brasileiros que os engenhavam. Mas sim, estrangeiros.

Ele viu um futuro onde a humanidade caminhava toda indo para um único lugar. Alta tecnologia. Ainda assim, todos eram minuciosamente colocados onde estavam, graças aos mecanismos de manipulação de massas criados pelas empresas que detinham essa tecnologia. Baixa vida.

O velho não podia permitir. Não mesmo.

Então, ele resolveu matar a tecnologia invasiva.

Ele criou a DeadTech.

Primeiramente, ele buscou uma saída mais diplomática. Ainda que seus ideais fossem contrários ao assim chamado progresso, adquiriu apoio popular o suficiente para conseguir galgar seu caminho na política. Com muito esforço e sujando as mãos, ergueu ao seu redor uma muralha de parlamentares, formando uma bancada anti-tecnologia. Começaram então os debates em defesa da regulamentarização de aparelhos que fossem considerados “invasivos ao direito de ser humano”. Este período foi conhecido como “guerra do fio óptico”.

Após alguns anos desgastantes, o velho finalmente conseguiu criar uma lei – da qual forçava que todo novo aparelho tecnológico tivesse que passar por uma minuciosa inspeção de técnicos especializados ligados à polícia, para que pudessem ser autorizados no mercado. Foi com surpresa que ele viu o presidente sancionar a lei sem nenhuma restrição. Foi aí que ele entendeu…

O presidente era um fantoche.

Leonid Cooper e seus comparsas comandavam o país.

E sua lei fora sancionada única e exclusivamente para que ele perdesse apoio político. Ele havia alcançado seu objetivo afinal.

Ele venceu uma batalha, perdeu a guerra.

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Foi aí que ele entendeu. O problema não estava nas máquinas. Máquinas são frias e irracionais. De nada adiantava destruir as máquinas.

O mal estava no coração dos homens.

E seria sua missão destruí-los. Mas como fazer isso?

A história havia ensinado tantas e tantas vezes… Quando não existe jeito na política, encontrasse jeito no terrorismo.

Cyberterrorismo.

Foi assim que a DeadTech começou a atacar diversas fábricas, hackear computadores, adulterar aparelhos. Nunca planejando destruir apenas os aparelhos, mas sim – e mais importante – a fé do povo naqueles magos da informação. Os gênios do século XXI.

Leonid Cooper e sua corja.

Com todos os seus esforços, eles conseguiram minar um pouco o império das megacorporações. Mas ainda faltava um movimento audacioso. Nenhum homem pode ser considerado um vilão se ele não causar mortes.

Anos depois, um motorista – estarrecido com a imagem da própria filha nua – acabou chocando seu avião com um elevador externo. Cerca de 17 pessoas morreram. Cooper é o vilão – já que sua tecnologia cheia de quebras de acordos de privacidade possibilitou tal crime, certo? Talvez.

A questão é: por que um homem teria feito isso? Enviado para o pai da menina e ido embora? O que ele ganhou com isso? Um motorista, com todos os circuitos de segurança, teria conseguido causar tal tragédia apenas por se distrair? E a DeadTech é assim tão poderosa, a ponto de descobrir todas as irregularidades deste projeto em apenas duas horas?

É muito clichê dizer que eu acho que não?

Só peço aos leitores que pensem no caso. Quem ganhou mais com essas mortes do que a DeadTech? E quem sofreu mais que Cooper?

E, afinal de contas, quem diabos é Paul?

Boa noite.”

A detetive Elisabeth Ribeiro leu esse artigo em voz alta. À sua frente, estava um jovem garoto. Seu rosto ainda mostrava as marcas de espinhas e seu quarto estava cheio de pôsteres de filmes com conteúdo político. Vários livros espalhados pelo chão com diversos marca textos neles. Elisabeth pegou um deles.

– “Cara, pra alguém que lê tanto, você escreve muito mal.” – Ela disse com uma careta no rosto.

– “Minha cara, o público gosta de um mistério. E gosta de sensacionalismo. Sim, eu poderia, e alguns diriam que deveria dizer logo a verdade. DeadTech de alguma forma é culpada por aquelas mortes. Mas isso seria apenas fácil e não traria views. É assim que a mídia funciona.” – Disse o menino com as mão atrás da cabeça.

– “Cara, deixe de enrolação. Você escreveu essas coisas. Se a DeadTech é tão perigosa assim, você não tem medo de que eles te silenciem?

– “Se eu morrer, provarei meu ponto. E depois, viraria um herói moderno, não acha?”

– “Viraria um cadáver fedorento e cheio de espinhas, isso sim.”

– “E seria imortal. Teria meu marcado para sempre na história, naquele que mostrou que a galera que luta pelo povo pode não ser tão mocinho assim.”

– “Você é doente…” – Elisabeth disse com certo descontentamento. – “Olha só… Eu vim aqui apenas para saber se você tinha alguma pista de verdade, ou se tudo isso foi obra deste seu cabeção.”

– “Nunca menospreze meu poder de dedução moça…” – Respondeu o menino com um sorriso.

– “Ok, Sherlock. Só tenho mais uma pergunta para você e irei embora, deixarei você fazer sabe-se lá o quê.”

– “Diga, sou toda ouvidos.”

O menino retirou, então, dois pequenos aparelhos de dentro de sua orelha. Elisabeth os identificou como fones de ouvido.

– “Você diz no texto que Paul, o cara que tirou a foto da menina pelada, pode ter ganhado alguma coisa em troca. O que ele poderia ter ganhado?”

– “Existem três possibilidades: a primeira é dinheiro. A segunda é por ideologia. Mas eu realmente acredito que tenha sido uma terceira.”

– “Qual?”

Elisabeth se endireitou para prestar atenção na resposta do menino. Não que ela não já tivesse pensado em todas aquelas possibilidades. E não, ela não achava que aquele menino saberia dar uma pista realmente substancial sobre o caso, mas não custava nada tentar.

– “A senhorita já ouviu a história do Rato e do Leão?”

Leão

Elisabeth fez uma cara de interrogação.

– “É a história de um poderoso leão e um ratinho. O leão poderia ter comido o ratinho, mas não o fez porque o pequeno animal o disse que poderia lhe ajudar um dia. Certa manhã, o felino foi capturado por uma armadilha e o ratinho o socorreu. Sendo assim, o leão virou o protetor do ratinho. Qual a moral da história?”

– “Que o rato chamou os caçadores e armou para o leão virar seu protetor.”

O menino colocou de volta seus fones. Deu um grande sorriso e se levantou. Andou em direção à detetive.

– “É por isso que você é detetive. Quão facilmente a DeadTech pode ter armado para o nosso querido Leão Paul?”

A detetive saiu do quarto. Em sua cabeça, ela tinha algumas ideias. O menino podia ou não estar correto, mas uma coisa parecia certa.

Paul era a chave para desvendar esse mistério.

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