A detetive que fazia as perguntas certas

Era uma noite quente.

A torrencial chuva que caía em São Paulo finalmente dava uma trégua, e o vapor de suas gotas tornavam o ambiente abafado.

A detetive estava sentada em um banquinho de madeira artificial em frente ao balcão.

Em suas costas, haviam dezenas de mesinhas redondas, cada qual com quatro cadeiras, onde os mais diversos tipos de pessoas conversavam e riam. Todas elas se aglutinavam e compartilhavam seus momentos de diversão naquele pequeno barzinho.

O local escuro, iluminado apenas por algumas poucas lâmpadas e por um ou outro bastão de neon, era conhecido em toda região por tentar, a todo custo, trazer de volta para a noite paulistana o charme de se sentar em frente às pessoas, tomar uma cerveja e comer uma porção de batata frita.

Capítulo 6

Naqueles dias, as pessoas preferiam vídeo conferências, conversando com seus entes queridos no conforto de seus lares, enquanto usavam potentes óculos de realidade virtual que simulavam os mais diferentes locais. Cada pessoa poderia criar um ambiente totalmente customizável e utilizar com seus contatos, porém, alguns ambientes, desenvolvidos especialmente por equipes de arquitetos digitais, precisavam ser comprados separadamente.

Mas nenhum destes ambientes – altamente realistas e sofisticadamente controlados – supera os casos do acaso. A aleatoriedade que rege a vida de homens e mulheres desde sempre. Naquele momento, Elisabeth avistara que um homem esbarrou em um sintetizoide. Um encontro acaso que culminaria, anos depois, no primeiro casamento entre um ser orgânico e um sintético da história.

Mas não era por acaso que ela estava ali. Ela estava esperando alguém.

O garçom se aproximou, com uma garrafa de um destilado qualquer, e encheu o copo dela. Adicionou algumas pedras de gelo e depois borrifou um spray dentro da mesma. Instantaneamente, ela começou a mudar de cor, saindo de um transparente e ficando lentamente avermelhado, até ficar vermelha como um vinho tinto.

 

Elisabeth agradeceu o garçom e moveu o copo circularmente, fazendo com que o líquido ficasse próximo de se esparramar do copo. Enquanto fazia isso, ela aproximou e sentiu o aroma que dele exalava.
Uma garota loira, usando um vestido vermelho, tal qual a bebida, e com uma chamativa pulseira cheia de pedras coloridas, aproximou-se da detetive, puxou um banquinho e sentou-se ao seu lado.
— Por que você cheira esse negócio? O gosto desta porcaria é o mesmo, não importa qual sabor você escolha. — Disse a mulher. — Garçom, me traz um copo de água mineral, por favor?

— Tá gastando em menina? — A detetive deu um gole em sua bebida. — Nem todos temos dinheiro para comprar bebidas caras que nem você. Enfim, trouxe o que eu pedi?

— Sim.

A jovem menina apertou uma das pedras de sua pulseira e uma foto holograma foi emitida da mesma. A foto mostrava uma festa, dado ao nível de detalhes em um ambiente real, onde centenas de jovens dançavam. Lasers atravessavam a sala da festa e, no centro, dois homens de capacete controlavam a música.

A mulher fez um movimento de pinça com os dedos indicador e polegar, fazendo com que a imagem desse um zoom em uma parte específica da foto. A mesma ficou distorcida, mas teve sua definição arrumada alguns segundos depois. Agora, víamos um jovem de cabelo castanho, penteado para o lado da cabeça, que conversava com uma garota negra.

— Bom. — Dissertou a detetive. — Então, este é o Paul?

— Sim. Eu segui as dicas que você me deu. Marcos hackeou o celular pulseira da menina e viu que ela só falava com um contato chamado Paul. Fui atrás dos ciclos de amigos dela e só precisei dormir com uma garota para chegar neste cara.

— Sotaque inglês e tal?

— O desgraçado tentou flertar comigo.

A mulher apertou outro botão em sua pulseira. Desta vez, uma foto de Paul visto de frente, junto com um pequeno texto, apareceu.

— O nome dele é Paul Smorror. Mas esse nome também é falso. Ele assinava como policial, porém, durante o escândalo dos documentos de Berlim, descobriu-se que ele era um infiltrado fazendo espionagem política. Ele vivia em uma pequena cidade na Escócia, desde então, escondido. E aí ele veio para o Brasil.

— Foi assim que ele entrou nessa então… Essa foi a chantagem que o fez vir ao Brasil para fazer toda essa merda. Mas a questão é: por que?

Elisabeth deu mais um gole em sua bebida, terminando-a. A mulher também havia terminado de tomar sua água. Ambas se levantaram e foram para a casa de Elisabeth, onde lá passaram o resto da noite.

O Sol já havia nascido quando as duas mulheres se levantaram da cama. Ambas se vestiram e foram até a cozinha tomar um café. A casa de Elisabeth não era das mais luxuosas, mas tinha bem mais recursos do que a maioria, incluindo um estoque de um preparado com cafeína sintética, ou seja, com aroma e cor semelhantes ao do abolido café de outrora. Elas se sentaram e começaram a debater sobre o caso.

Capítulo 6

A mulher apertou outro botão de sua pulseira e um teclado virtual apareceu na mesa, juntamente com uma telinha emitida em forma de holograma. Ela, com a supervisão de Elisabeth, começou a pesquisar, hackear e deduzir o perfil psicológico do tal “Paul”.

Descobriram que, na Alemanha, várias mulheres buscavam encontrá-lo, uma vez que ele as usava para sexo e depois sumia com alguma informação importante. Este parecia ser o modus operandis do mesmo. Descobriram também que existiam rumores de que, depois do vazamento de seu nome como agente infiltrado, ele começou a fazer pequenos serviços para quem estivesse com problemas.

Seu perfil de ataque era claro: mulheres sob forte estresse ou que tivessem passado por situações de desilusão amorosa. Além disso, ele era um amante de baladas e bebidas.

Um galanteador barato.

— Você já parou pra pensar que a Deadtech, assim como o Paul, já devem ter nos hackeado e estão vendo que nós estamos pesquisando sobre ambos? — Disse a mulher.

— Já. É possível, mas… dane-se. Se você ficar pensando que todos sabem o que você faz na internet, vai acabar ficando louca e vai morar com os amish nos Estados Unidos.

— Isso deve ser uma vida horrível.

— Uma vida de merda.

Mais algumas pesquisas e elas conseguiram descobrir que, no dia seguinte, haveria uma festa em homenagem ao aniversário de uma importante figura de negócios paulista. Acessando a lista de convidados, encontraram o nome de Paul Smorror.

Alguns telefonemas para a central foram o suficiente para que a polícia conseguisse um par de convites para que as duas pudessem entrar na festa, com a missão de capturar o dito cujo e arrancar a verdade dele.

Mas a verdade, às vezes, dói… e nem sempre estamos preparados para ela.

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