O Sol bateu na janela do quarto da velha casa, mas o que os acordou foi o despertador do celular… assim começava mais um dia do velho casal moderno.

O homem fazia o café. Ele sempre fizera o café, antes com o entusiasmo de agradar sua esposa, e agora por sua necessidade de cafeína. A mulher preparava os lanches. Ela sempre fizera os lanches, antes com o entusiasmo de agradar seu marido, mas agora parecia que era melhor apenas matar a fome de ambos.

Tomaram o café calados, poucas vezes conversavam. Antigamente, costumavam falar bastante, debatiam sobre qualquer assunto. Ela sempre teve ideias fortes e, normalmente, contrárias a da maioria. Ele possuía uma mente aberta, entretanto, sem ser fraca. Mas agora, ele já conhecia todas as suas opiniões e estava exausto delas. Ele tomava o café ouvindo podcasts, pois lhe era melhor do que ouvir opiniões da esposa ou o barulho das próprias mastigadas.

Apesar de ambos terem mais de 60 anos, estavam indo trabalhar (pois a nova lei obrigava-os a trabalharem praticamente até a morte, e ainda seriam capazes de usarem seus restos mortais para gerar energia). Ele dirigia e levava-a até seu trabalho, antes de se dirigir ao seu. Aqueles minutos do trajeto eram os únicos que ouviam a mesma música. Talvez até se lembrassem que eram casados.

Na volta para casa, ela sempre pegava carona com uma antiga amiga, pois ele sempre voltava um pouco mais tarde. Tomavam seus banhos e jantavam assistindo séries (isto os unia há muito tempo).
Nos olhos dele existiam olheiras, olhos que estavam tristes e cansados de amar a mesma mulher… orou a Deus para que fosse viúvo. Ela percebia os olhos cansados do marido e o entendia por não amá-la… orou a Deus para que aquilo mudasse.

No dia seguinte, ela acordou antes do despertador tocar e preparou o café e os lanches. Pouco antes de servir ao esposo, percebeu que o café estava horrível e logo entendeu o porquê ele preparava o café. Tentou consertar aquilo preparando um cappuccino. Então entrou no quarto e surpreendeu o marido. Há 27 anos, 8 meses e 16 dias que ela não fazia isso.

Naquele dia, ambos tomaram o café tagarelando. Durante o caminho para o trabalho não houve silêncio. Quando chegaram ao trabalho da mulher, existiu até um abraço de despedida. E pela primeira vez, desde que eles não tomavam remédios diários, sentiram saudade um do outro.

O computador marcava 17h e o homem já estava indo embora, ansioso para ver a esposa. Ele passou em sua loja favorita de chocolates e comprou os melhores. Chegando em casa, percebeu que a mulher ainda não havia chegado. Ansioso, ele a esperava.

Resolveu ligar a televisão para passar o tempo. Ao sintonizar no telejornal, viu que a empresa onde a esposa trabalhava estava em chamas. Ficou apreensivo, ouvindo atentamente a lista dos mortos encontrados – até ouvir o nome de sua esposa. Então, chorou amargamente, se sentiu péssimo ao lembrar que pediu aquilo e chegou a pensar que era melhor que ela tivesse partido no dia anterior, quando ele não sentiria sua falta.

O Sol bateu na janela do quarto da velha casa, mas o que o acordou foi o despertador do celular. E assim, começava mais um dia do velho homem moderno.

O Velho Casal Moderno

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