Baseado em fatos irreais

Era a primeira vez que ele ficaria em casa sozinho. Para um garoto de 12 anos isso ainda era uma novidade. “A noite promete”, pensou ele. Ligou seu Mega Drive e colocou o cartucho de Streets of Rage. Trilha bacana, jogo de pancadaria, não havia necessidade de passar muito tempo pensando. Apenas agindo. O telefone toca.
Ele o atendeu. Era sua mãe. “durma cedo”, dizia ela. “o bicho papão vêm para pegar criancinhas que dormem depois das 10 da noite…”. Se despediu. Ora, não tinha mais idade para acreditar em bichos papões. Já era quase adulto, afinal, os sinais em seu corpo não deixavam mentir sobre isso. 
Terminou seu jogo. Mas não estava satisfeito. Foi aqui teve a brilhante ideia. Seu irmão não estava lá, o Playstation estava livre, e sua mãe não o impediria de ver desta vez aqueles gráficos incríveis. Finalmente veria do que a nova geração de jogos era capaz.
Se levantou. A casa estava escura e a única luz que brilhava na residência advinha da televisão. Foi quando de canto de olho viu uma estranha sombra da janela da sala, que dava diretamente para a rua. “estranho”, pensou ele. Cautelosamente foi se esgueirando para ver melhor, enquanto tentava não ser visto por aquela coisa esquisita. Porém, chegando lá, nada havia. “Deve ser isso que chamam de puberdade”. Saiu de perto da janela e voltou a tomar o caminho do quarto do irmão. Passos vacilantes e cautelosos, algo estranho passava em sua cabeça. afinal de contas, o que era aquela sombra? seria uma pessoa normal que apenas andava? Mas algo parecia tão bestial, tão primitivo naquela figura… Seria uma criatura das trevas que veio andar por entre os vivos? Não podia… o que algo assim faria em sua rua? Nunca ouvira falar de nenhum relato de um ser sobrenatural que andasse naquela rua… nenhum exceto um. O bicho papão. Mas que bobagem! Bicho Papão é uma historinha criada para as mães manterem as criancinhas na linha, e disso ele sabia bem. Tomou coragem. Não havia nada ali.
Ou será que tinha?
O vento soprou em sua nuca.
O som de madeira sendo esmagada por pesados pés chegou ao seu ouvido.
Uma massa esquisita e escura tocou seu ombro.
Já não havia uma criança de 12 anos ali, Apenas um pequeno ser humano que após uma descarga absurda de adrenalina tentava escapar.
Suas pernas não obedeciam.
Virou lentamente seu rosto, não sabia porquê,mas queria ver o que o atacava.
Não havia nada.
Silêncio.
Desesperado, ligou a luz da sala. Desligou a TV, mirou em direção ao seu quarto e partiu em disparada. Lá chegando se cobriu completamente com seu cobertor e ficou de costas para a porta. olhos fechados e ouvidos abertos, mas nada pode escutar.
Nunca havia sentido tanto medo. Jamais saberia dizer o que aconteceu. Jamais soube se de fato aconteceu. A única coisa que tinha certeza é que naquela noite, nos últimos dias de sua tenra infância, sentiu medo. Talvez quando criança por não ter tanta experiência nem preocupações conseguia ser mais suscetível a acreditar no sobrenatural. A temer o Lobo atrás da porta e a Bruxa da floresta. De alguma forma depois de envelhecer acabou acreditando cada vez menos de que aquela experiência foi real. Ainda assim sabia que seu coração bateu, de uma forma ou outra viveu uma aventura e sobreviveu a ela.
Sobreviveu.
Talvez seja essa a maior graça da vida. Saber que não importa pelo que passamos, pelas pessoas que nos ameaçaram ou intempéries da natureza que nos assolaram. Sobrevivemos. É essa a graça dos filmes de terror, não? Não importa que vil criatura, que sádico serial killer ou abominável golpe do destino assole os personagens, nós passamos por aquilo juntos deles e sobrevivemos. Isso nos faz nos sentir fortes, imponentes, poderosos.
Vivos.
É por isso que nenhum gênero meche mais com nossa mente e imaginário de que o terror.
Aliás.
Por precaução.
Não olhe pro espelho do banheiro. Espelhos são portais para seres interdimensionais te atarem quando desprevenido. 

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