Tutorial da Vida | Despedida do Emprego

Aquele dia inevitável para quem trabalha sob contrato ou está de aviso prévio, ou até para quem o ambiente tenso te grita como um aviso prévio. Mas você tem que ficar lá e fingir que tudo está normal. Trabalhar normal, agir naturalmente e dizer que entende tudo, pois é isso que as pessoas maduras fazem: são falsas e fingem que tudo está bem, fingem que não estão decepcionadas ou entristecidas.

Lembro-me da vez mais marcante na qual isso ocorreu comigo. Trabalhei por um ano sob contrato. Um ano intensivo de aprendizado e muito trabalho, um emprego que me fez crescer em todos os aspectos (exceto em estatura). Um lugar que me trazia amarguras e alegrias, pois me empenhava arduamente e depositava meu coração na causa. Todavia, era hora de ir embora. Perceber que fiz nascer e criei expectativas, as quais prometi a mim mesma que assassinaria ainda na concepção.

Lembro-me de subir as escadas e colocar meu dedo em uma máquina que pertencia à empresa. Ela reconhecia minha digital, sabia meu nome, sobrenome e PIS, e eu sabia que minhas informações seriam apagadas da memória daquela máquina, assim como na maioria das pessoas. Isto doeu um pouco, mas eu não chorei e nem disse isso a ninguém – pessoas maduras fazem isso, elas mentem sobre o que sentem e sabem. Também pelo motivo de que, caso eu dissesse a verdade, ouviria uma mentira comum, do tipo “nós não vamos nos esquecer de você”. Então, eu me cansaria de dizer a verdade, me faria de idiota e fingiria acreditar em suas palavras vazias.

E trabalhei duro naquele dia – como em todos os outros – para entregar todas as tarefas até o fim do dia. Um ano de trabalho que não era meu, depositado em minhas costas, e logo achariam outro idiota para carregar. As pessoas que sempre mantiveram uma boa distância de mim, naquele dia, me abraçaram e me contaram mentiras agradáveis e eu, como uma pessoa civilizada, agradeci e fingi acreditar. Porque ser civilizado é ser agradável com quem não merece isso.

Então, finalmente me lembro de quando fui embora, andando sozinha pelos corredores vazios – pois saía tarde, quando poucas pessoas ainda estavam ali. As paredes não mentem e eu não menti a elas. Sentiria falta delas, de suas estruturas mal feitas, sua lage cheia de infiltrações e tantas camadas de tinta, na tentativa de que elas mentissem. E assim eu fui embora, como em qualquer outro dia, sabendo que não retornaria na manhã seguinte. Não chorei ou disse algo real, apenas fingi que não importava, pois é assim que se segue a vida.

bio raquel

2 COMENTÁRIOS

  1. Dia ruim, cheio de tapinhas nas costas, sorrisos tortos e fofocas nos corredores, sai pela porta, memória apagada do sistema e você morreu pra todos, mas é isso, a vida segue e temos que procurar outra máquina de ponto para te apresentar o indicador.

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.